o matador de escritores

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“(...) ... só Mariella, alta funcionária da biblioteca, desconfiou dos meus crimes e dos meus assassinatos. Era tarde, porém. Quando Mariella desconfiou de mim, eu era já um assassino de escritores com duas dezenas de mortes nas costas. Matei-os, sim. Romancistas, contistas, novelistas — matei-os ao longo de dez ou quinze anos. Sem piedade, sem remorsos, sem culpa. Este por estrangulamento, aquele por envenenamento, outro pela arte de sangrar, a punhal, do modo como os encantadores de facas, ainda hoje, exercem as suas lúgubres tarefas em algumas cidades da fronteira. Matador de escritores, algoz de romancistas, verdugo de contistas, tantos nomes que agora o mundo cola ao meu próprio nome. Mariella, alta funcionária da biblioteca, até me surpreendeu certa noite, ainda com as mãos sujas de sangue, depois de mais um dos meus crimes. Era um romancista. Não era jovem, não era idoso, ia pela casa dos 57, 58 anos. O nome dele era Joel Sorenz. Dei-lhe o veneno aos poucos, a conta gotas, com exatidão, antes de sangrá-lo. A cena do crime foi o corredor entre a estante dos autores russos e a estante dos autores polacos. Joel Sorenz pedia clemência. Por vezes, ajoelhava. Por vezes, suplicava, com os olhos atônitos e as lágrimas em livre curso pelas faces rubras. De nada adiantou tal histeria. Dosei com precisão o veneno, exigi que ele lesse duas de suas páginas mais famosas enquanto ia sendo envenenado, e, depois, sangrado. E fiz que ele escrevesse, em papel por mim escolhido, o Manifesto do Esquecimento, que é como batizei o livro que, a cada morte, vou escrevendo com as palavras das vítimas...”.

FICÇÕES DE LUCAS BALDUS
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